sábado, maio 26, 2007

A (IN)UTILIDADE DA EDUCAÇÃO TEOLÓGICA

O diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o engenheiro eletrônico Carlos Henrique de Brito Cruz, disse, numa entrevista à Folha de S. Paulo (de 26.5.2007):
"A missão fundamental da universidade é fazer avançar o conhecimento e educar os estudantes. Essas atividades são relevantes em si. Não temos de ficar perguntando para que serve a aquela pesquisa, que problema ela vai resolver. Que utilidade tem descobrir que a idade do Universo é 13,7 bilhões de anos? Se procuramos utilidade disso em termos de geração de empregos, não vamos achar. (...) A universidade no Brasil precisa recuperar a convicção, que já teve um dia, de que avançar o conhecimento e educar bem os estudantes é a contribuição que a sociedade espera dela. As pessoas, depois, podem ser usadas tanto na indústria quanto nos institutos públicos."

Dá pra pensar a frase em termos de educação teológica?
Que utilidade tem -- pergunto, parafraseando o ex-reitor da Unicamp -- discutir como foi organizado o Pentateuco?

3 comentários:

João de Apokalúpsis disse...

Entendendo ser a Bíblia a revelação especial de Deus aos homens, assim como temos a ambição de desvendar a revelação natural, podemos, e devemos, gastar tempo em busca da verdade da Verdade. A educação é uma benção para os homens que desejam servir a Deus com todo o entendimento que o Espírito lhes conceder. Agora, se é para opor fé e razão o tempo todo ou usar a teologia para distancia o homem de Deus e debochar da experiência religiosa, simplesmente porque ela não cabe na caixinha da razão, aí é bem inútil mesmo. O homem tem problemas reais, dores reais, aflições reais. O homem que sofre não é preenchido com elocubrações teológicas, muito menos pelas liberais. Lamento todos os dias, apesar de não ser aluno, que esse é o caminho que o nosso Seminário do Sul trilha.

Que Deus use o Pr. Israel para mudar esse quadro.

Fábio disse...

Sou aluno de outro seminário batista, e também lamento o caminho (ou melhor, descaminho) que o mesmo adotou, abraçando a teologia liberal e ensinando aos alunos - futuros pastores e missionários - que a Bíblia não é Palavra de Deus, que o sobrenatural de Deus não existe, e que os livros da Bíblia não passam de um amontoado de crendices e lendas judaico-cristãs. Que futuro resta para as igrejas batistas, com tais "educadores" formando a futura liderança? Além de tudo, aqueles que detém o poder para mudar alguma coisa, preferem debochar e zombar do que chamam de "fé infantil" dos que (ainda) crêem. Que pena!

Ruben Marcelino disse...

Caro Pr. Israel,

À luz dos comentários expostos, preciso fazer algumas considerações. Acho indispensável a pesquisa teológica democrática, que seja capaz de colocar em diálogo perspectivas de análise bíblica distintas, sendo que não existe hermenêutica que dê conta de todos os problemas e possibilidades que podem ser descobertos nessa tarefa. Lamento que, em nome de uma suposta piedade e da "defesa" da revelação, alguns não só pretendam que certas propostas de análise filosófica, literária e científica legítimas sejam excluídas das discussões teológicas porque soam "pouco" ortodoxas, como também as estigmatizem perante a igreja (apresentando informações distorcidas), em vez de apresentá-las com transparência (ao invés de rotulá-las de "perigos para a fé") e levar a comunidade à discussão sadia. O único perigo para a fé é a própria fé, quando pretexto para o fanatismo e a falta de reflexão e bom senso. Conheço alguns dos professores atuais do Seminário do Sul (que não são da minha época), com os quais já conversei sobre questões da fé, e nunca ouvi nada que soasse como indiferença ou deboche em relação à fé cristã e mesmo negação do sobrenatural. Vejo, sim, que eles têm o direito de possuir e expor suas posições teológicas e que a sua atitude deve mesmo provocar as consciências dos educandos, inclusive para demolir uma arrogância dissumulada que diz submeter-se ao mistério de Deus, porém o tempo todo insiste em enquadrá-lo nessa ou naquela perspectiva teológica, como se única e suficiente fosse. E daí que haja aqueles que não considerem a Bíblia a Palavra de Deus letra por letra? A meu ver, fazer equivaler o texto da Bíblia, produto da lavra humana, à Palavra de Deus é idolatria. Coisa bem diferente é aproximar-se dela com fé por saber que ela contém testemunhos de pessoas que encontraram Deus em sua própria experiência e, baseado nesse mesmo testemunho, considerar que o Espírito Santo trará ao coração daquele que lê a presença do Senhor, embora trabalhando sobre a letra do homem falível. Penso que o Seminário do Sul não deveria ser responsabilizado por aquilo que alunos (ditos "liberais" ou ditos "ortodoxos") dizem, muitas vezes irrefletidamente, ao que parece preocupados não com o diálogo e a fraternidade, mas tão somente em fazer prevalecer a própria opinião. E sobre se há alguma utilidade em estudar a formação do Pentateuco: sou da posição de que há sim; toda a formação da literatura bíblica! O avanço nas pesquisas sobre a história da produção, transformação e estruturações teológicas dos textos pode desvendar intencionalidades (políticas e teológicas) ainda não notadas e, conseqüentemente, chamar a atenção para os modos de interpretação e culto com os quais Israel proclamava transcendência de sua divindade e dava expressão (limitada) à ação imanente dela. Desse modo, talvez consigamos iluminar as nossas próprias compreensão e atualização prática desse patrimônio da fé. Parabenizo o sr., Pr. Israel, por seu trabalho e amizade, por causa da qual ouve minhas perguntas e se dispõe a discuti-las comigo. Que Deus o abençoe!