sábado, janeiro 06, 2007

SAUDADE(S)

SAUDADE(S)
Tenho saudade da ditadura brasileira, tempo em que só lutávamos contra os inimigos, porque sabíamos quem era os inimigos: os adversários das nossas boas causas de justiça e liberdade. Na época não brigávamos contra os amigos, como agora. Como precisamos brigar e não temos inimigos, enfrentamos os amigos. Os "generais" eram os inimigos. Tive um poema, candidato a participar num sarau de estudantes, proibido exatamente porque denunciar o poder dos generais. O poema era péssimo (felizmente eu o perdi), mas a causa era nobre. Era tudo muito claro, e nós reclamávamos. Erakos felizes e não sabíamos. Podíamos dizer que nossas gavetas estavam cheias de obras-primas, que acreditavam.
Não quero as baionetas, mas as bandeiras fazem falta.

Tenho saudade de quando Fernando Henrique Cardoso era apenas uma referência para se entender, por meio de suas obras, o Brasil e a América Latina.
Depois que virou presidente, deixou de ser importante. Ou será que não tolero a idéia de um intelectual na política?

Tenho saudade da vírgula no meio da expressão "Acorda Brasil".
Quero a gramática de volta.

Tenho saudade da semana em que, num mesmo jornal, se podia ler Alceu Amoroso Lima e Carlinhos de Oliveira num mesmo jornal. Eram indignados, mas bem-humorados.
Quero textos bem escritos.

Tenho saudade da televisão em preto e branco e que não rodava o dia todo.
Quero os brasileiros vendo menos televisão. Quero a televisão mais interessada nos brasileiros.

Tenho saudade das gerações em que ser evangélico era um compromisso. Uma palavra empenhada era uma palavra empenhada. "Evangélico" era sinônimo de honestidade no trato com as coisas particulares e com as públicas. Um político evangélico podia até não ser competente, mas era honesto. Um evangélico desejava ser íntegro. Embora jocoso, um relato antigo dá o tom: uma senhora se encontra com um colportor numa esquina e lhe pergunta por sua igreja. "Não estou mais lá: chafurdei no lamaçal do pecado. Pedi minha exclusão".
Não quero legalistas, mas quero homens e mulheres que se autocritiquem em lugar de criticar os outros.

Tenho saudade dos cultos cujo valor não era contado pelo ritmo, senão o do coração; nem pelos artistas convidados, senão pelo entusiasmo dos crentes; nem pela qualidade da música, senão pela fidelidade da palavra exposta.
Quero cultos contagiantes, não espetáculos que insuflam os egos que habitam as plataformas.
Tenho saudade das esquinas livres, mesmo escuras, e das ruas amplas, mesmo ocupadas, e não habitações do medo.

4 comentários:

Marco disse...

O Aurélio aqui na minha frente diz que 'saudosismos', além de um movimento literário português, consiste em superestimar o passado. Bom, acho que saudosismo também é um suspiro, um momento de pausa. Olhamos para trás e somos embalados pelos bons tempos....
Depois, precisamos olhar adiante e lembrar que 'a luta continua'. Precisamos nos renovar, inspirar o que há de novo, reter o que for bom e crescer.
Claro que este não é um movimento retilíneo uniforme, mais para sinuoso e variado, parecendo a sanfona de Luiz Gonzaga, indo e vindo.
Mas lhe entendo e, se serve de consolo, também tenho minhas saudades e convivo com elas como bons livros numa estante, aqueles que, quando tudo está perdido, recorremos para ter uma lufada de ar fresco ( ou balão de oxigênio, depende :), num momento de pura asfixia.

Christopher Marques! disse...

Infelizmente somos tomados por esta saudade de que houve tempos que tudo era melhor, mas o que fazer para recuperar este tempo? Não vejo possibilidades, porque o tempo não é uma construção ou algum objeto que possa ser restaurado. É como o desenvolvimento do filósofo Crítero, que não acreditava na possibilidade de que alguém pudesse convencer ou ganhar alguém com os seus pensamentos, porque assim como as correntezas de um rio, cuja suas águas se renovam a cada momento, assim é o homem e o tempo. O que pensamos em cinco minutos atrás não é o mesmo pensamento elaborado com eficácia neste exato momento. Portanto, o que ficou para trás ficou.
É muito interessante que naquela época havia muitas críticas com o sistema de governo, com o sistema de educação e de jornalismo, mas então o porquê das saudades? É porque não entendemos quando estamos numa situação confortável e agradável. O homem na busca por tanta transformação e conhecimento perdeu o que havia de belo, de simples de uma vida mais satisfatória. A saudade também baterá no coração no futuro, quando olharmos para trás e refletirmos sobre o nosso modo de vida e de democracia. A saudade é inevitável em todas as ocasiões. Mas já que é para sentir saudades, então que sintamos de momentos felizes, que compensem as nossas lágrimas e sorrisos. Precisamos e devemos construir um futuro que começa com o presente, não de um resgate dos métodos do passado, mas com um aprimoramento com excelência e que seja relevante para as novas gerações e que inspirem pensadores e revolucionários a acreditarem que assim como no passado houve homens e mulheres que marcaram épocas, assim estes que lerão a nossa história se motivarão a construir algo que também criará saudades.

Christopher Marques
www.cristomarques.blogspot.com

Felipe Fanuel disse...

Caro Professor,

Esta postagem é bastante inspiradora para mim, pois aprendo bastante com a nostalgia dos outros.

O tempo vivido pelo senhor, sobretudo na época da ditadura, foi único. Como já apontou, muita coisa tem mudado, mas ainda há muito o que se fazer.

Certamente, os ideais pelos quais vocês lutaram foram as raízes dos frutos que hoje colhemos. Infelizmente, somos ingratos, porque somos maus colhedores. Não valorizamos as conquistas de vcs.

Tenho a impressão de que ainda estamos aprendendo a lidar com esse novo tipo de vida.

Um forte abraço.

Talita Rodrigues disse...

Ó Israel!
Ao ler voce, quem fica com saudades sou eu. Quanta saudade! Do Seminario, do Pereréu, e de tantas outras coisas. Um grande abraço. Que o nosso bondoso deus continue a abençoar a sua vida, família, ministério. Qualquer dia desses eu apareço na sua igreja.
Talita de Souza Rodrigues. Ex aluna (e continuo aprendendo quendo leio suas coisas... Missionaria em Angola...Lembra?